Informações de blogs são confiáveis?
Espero que sim. Informações disponibilizadas neste blog já foram utilizadas em aulas de química inorgânica (! Veja página 16) e na elaboração de uma dissertação de mestrado (ver páginas 41 e 46).
Obrigado pela confiança.
PS – Recomendo também as informações dos blogs do ScienceBlogs Brasil e dos outros, aqui da coluna à direita deste.
PS2 – Nem sempre as informações de blogs são as mais confiáveis (veja aqui).
O primeiro benzeno de silício
O primeiro benzeno de silício foi sintetizado, e sua estrutura publicada no último número da revista Science. A estrutura não é planar: apresenta forma cadeira, e têm coloração verde-escura (absorção em λmax 623 nm). É estável à temperatura ambiente, com ponto de fusão de 216 oC. Foi caracterizado por espectrometria de massas, tendo apresentado sinal de íon molecular em m/z 1388, que corresponde à fórmula Si6C90H138, de uma fórmula dimerizada. A análise do espectro de Ressonância Magnética Nuclear de correlação direta 29Si/1H indicou três deslocamentos químicos para os átomos de silício: em δ 124.6, −84.8, e −89.3. O primeiro com um substituinte do tipo triisopropilbenzil, o segundo com dois substituintes deste tipo e o terceiro sem substituinte. A estrutura foi definitivamente estabelecida por análise por difração de raios X.
Diferentemente do comportamento observado para sistemas aromáticos clássicos contendo 6 elétrons π, os elétrons sob deslocalização no hexasilabenzeno podem ser de três diferentes tipos: dois π, dois s e dois elétrons não ligantes, que se deslocalizam ao longo de somente 4 dos 6 átomos de silício. As formas de ressonância que melhor representam o hexasilabenzeno são as A e B, sem que se possa excluir alguma contribuição da forma C (indicadas a seguir).
O trabalho apresenta ainda cálculos teóricos, inclusive de orbitais moleculares, para explicar as propriedades observadas para o hexasilabenzeno.
Os autores explicam que “o formalismo geral que leva à aromaticidade em compostos deste tipo é explicado por deslocamentos 1,2- duplos dos substituintes nos átomos de silício, designada uma dupla dismutação intramolecular. Os estados de oxidação observados para o silício no hexasilabenzeno são de +2 (para os átomos de Si com 2 substituíntes), +1 (com 1 substituínte) e 0 (sem substituinte). Assim, os autores propõem a criação do termo aromaticidade dismutacional para um fenômeno que em princípio deve ser aplicável para qualquer composto aromático clássico (que obedece à regra de Hückel), com pelo menos seis átomos em um anel de 6 membros”.
Pergunta inútil: serve para alguma coisa? Provavelmente não.
Mas o conhecimento serve para tudo. É a essência da ciência.
Referência
Abersfelder, K., White, A., Rzepa, H., & Scheschkewitz, D. (2010). A Tricyclic Aromatic Isomer of Hexasilabenzene Science, 327 (5965), 564-566 DOI: 10.1126/science.1181771
Taxonomia clássica: uma ciência em extinção
A classificação das coisas do mundo é parte essencial do conhecimento humano, pois desde seus primórdios, na idade da pedra, o homem buscou classificar. Tudo. Lugares, situações e coisas. Principalmente seres vivos. A arte da classificação dos seres vivos pode ser primeiramente atribuída a Aristóteles, que desenvolveu o primeiro sistema de classificação, ainda que com alguns critérios questionáveis. Durante séculos a classificação Aristotélica permaneceu em uso, até que a ciência da classificação dos seres vivos, a taxonomia, nasceu na Europa e vingou. Principalmente com o sistema de classificação binária de Linneu, que propôs que todo ser vivo pode ser nomeado em termos de seu gênero e sua espécie. Homo (gênero) sapiens (espécie). Ou ainda em gênero, espécie e sub-espécie, como Canis lupus familiaris (o melhor amigo do homem).
A diversidade biológica está intrinsecamente associada à identificação dos seres vivos, através da taxonomia, uma vez que o conhecimento das espécies biológicas define o grau de sua diversidade. Embora se estime que o número de espécies biológicas seja de 10 a 15 milhões, apenas cerca de 2 milhões já foram classificadas. A classificação das espécies permite que se conheça sua variabilidade, ciclo de vida, nicho ecológico, sua função nas comunidades e nos ecossistemas em que estão presentes. Além disso, muitas espécies de seres vivos podem ser extremamente úteis para a sociedade, numa visão bastante antropocêntrica. A humanidade tende a julgar como mais importantes aquelas espécies que são úteis, em detrimento de todas que participam da biodiversidade, numa enorme rede de vida. Mas mesmo adotando uma visão antropocêntrica, muitas espécies podem ser úteis para gerar produtos (remédios, pesticidas, herbicidas, etc. ,etc.), realizar processos (enzimas), divertir o homem (como animais de passeio ou por seu comportamento único, como macacos. Embora todos os humanos também apresentem comportamentos únicos, em todos os sentidos), causar impressões estéticas de beleza, prazer (música), tranqüilidade. E tudo o mais.
Mas, nada disso seria possível sem o auxílio da taxonomia, a ciência de classificação dos seres vivos. Afinal, sabemos que um ipê é um ipê. Mas também sabemos que um ipê roxo não é um ipê amarelo nem um ipê branco. E mesmo os ipês amarelos são de pelo menos 7 espécies diferentes. Porém, a taxonomia clássica de classificação está em desuso, rumo à extinção. Por algumas razões.
Segundo Boero, a primeira das razões pelas quais a ciência da taxonomia está desaparecendo se deve às decisões estabelecidas logo após a Convenção da Diversidade Biológica, realizada no Rio se Janeiro em 1992. Embora a sociedade e seus representantes tenham determinado a importância em se conhecer e preservar a biodiversidade, as ações subseqüentes foram tomadas por órgãos e agências de financiamento, sob a avaliação de cientistas. Ora, embora tal processo dificilmente pudesse ter sido realizado de outra maneira (pela avaliação por pares), poderia-se ter consultado as partes participantes desta empreitada. Certamente taxonomistas teriam sido muito importantes para opinar. Mas eventualmente não foram, ou não tiveram força suficiente para tal.
Ainda segundo Boero, o nascimento da cientometria teria, de certa forma, iniciado o processo de condução da taxonomia clássica ao ostracismo. Isso porque a adoção do fator de impacto das revistas como único critério de mensuração de relevância das publicações levou ao abandono de revistas de museus e entidades afins, utilizadas por nichos de cientistas muito específicos. E, por isso mesmo, são pouco citadas em um contexto mais global. Se, por outro lado, fosse também utilizado o critério de meia vida de citação (cited half life, CHL), as revistas de descrição de espécies biológicas certamente teriam os maiores índices, pois uma vez estabelecidos critérios de classificação de uma espécie, e uma vez que determinadas espécies são descritas, estas são citadas ad infinitum. Infinito segundo os critérios do Institute for Scientific Information é um CHL > 10. Assim, por exemplo, poderia-se prevenir o esquecimento de obras seminais, publicadas até mesmo recentemente, como a monografia “An introduction to hydrozoa”, por Bouillon et al. (Mémoires Du Muséum d’Histoire Naturelle, 2006, 194, 1-598).
Mas a importância da taxonomia renasceu com as técnicas de biologia molecular. Atualmente se considera uma taxonomia correta aquelas realizadas pela análise de RNA e de DNA, nuclear, mitocondrial ou rimossomal. Por isso, hoje em dia “os bons taxonomistas” devem fazer uso de técnicas de biologia molecular. Ironicamente, segundo Boero, muitos destes nunca se preocuparam em descrever tais espécies do ponto de vista fenotípico, simultaneamente à descrição de seu genoma. Paradoxalmente, são obtidos resultados discrepantes de classificação molecular de uma espécie, dependendo da metodologia que for adotada para tal. Ora, do ponto de vista fenotípico isso não acontece. Os mesmos critérios de descrição fenotípica são adotados universalmente. Logo, o melhor seria que fossem utilizadas conjuntamente ferramentas moleculares e critérios fenotípicos para a descrição das espécies.
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O mesmo vale para a recentemente criada moda de classificação por códigos de barras. Grandes projetos multi-nacionais, envolvendo inúmeros países, estão implementando a classificação dos seres vivos com códigos de barras. Mas classificando o quê, mesmo? De acordo com quais critérios? Moleculares. E os fenotípicos? Estão sendo levados em conta? Compreendo, de certa forma, a indignação de Boero. Afinal, a colocação de organismos em prateleiras de supermercados, com seus códigos de barras, para que simplesmente possa se comparar seus genomas quando passados em um leitor a laser, deixa de lado a essência da biologia. Pode ser uma visão romântica, mas não deixa de ser válida. Embora as características moleculares incluídas em um código de barras possam ser extremamente úteis para a classificação de espécies e o agrupamento de espécies similares, tais ferramentas não permitem a visualização da biodiversidade em um contexto mais amplo. Além disso, certamente as empresas fabricantes dos instrumentos para a classificação por códigos de barras irão ganhar um bocado de dinheiro.
Ainda de acordo com Boero, muito pior é o completo descaso com a diversidade funcional dos seres vivos. Muitas vezes, a grande maioria destes apresenta particularidades extremamente importantes para sua descrição e conhecimento. Como no caso de alguns hidrozoários que nunca morrem: quando atingem o estágio de medusa se fragmentam e geram novos indivíduos. Mesmo assim, as generalidades sobre as espécies são estabelecidas com aquelas de fácil manutenção em laboratório – que são as mais raras. Ou seja, a descrição de generalidades é feita sobre os casos biológicos excepcionais, em que é possível se manipular espécies de forma controlada durante longos períodos!
Não sem surpresa, o “abandono dos taxonomistas” levou a ciência de descrição das espécies a uma situação crítica. A ponto do National Science Foundation, a principal agência de financiamento científico dos EUA, reconhecer o problema e estabelecer prioridades para a re-construção da massa crítica de taxonomistas nos EUA. Mas, o problema persiste. Porquê? Bom, qual cientista obtém reconhecimento com publicação de seus trabalhos em revistas de baixo fator de impacto, como são as revistas de biologia dedicadas à descrição de espécies? Mesmo assim, o número de taxonomistas no Brasil ainda é muito maior quando comparado ao número de taxonomistas em outros países.
O perigoso reducionismo e pragmatismo em estabelecer, a priori, o que é bom ou ruim, válido ou não, relevante ou desimportante em ciência são ressaltados no artigo de Boero, que poderia facilmente ser estendido, de maneira mais abrangente, para outras áreas do conhecimento. As ciências humanas, por exemplo. Durante os anos 60-70, as ciências humanas eram consideradas o ponto forte do conhecimento gerado pela comunidade acadêmica brasileira. Atualmente as ciências humanas estão completamente marginalizadas. Por não publicarem em revistas de alto fator de impacto, de grande visibilidade, de conseguir angariar verbas para a realização de projetos vultosos.
Contudo, tais projetos são realizados e em curto prazo demonstram sua enorme importância. Como, por exemplo, na publicação da gigantesca obra “Gramática do Português Culto Falado no Brasil” em cinco volumes, da qual os volumes 1 (“Construção do texto falado”, 557 páginas, 2006) e 2 (“Classes de palavras e processos de construção”, 1167 páginas, 2008) já foram publicados pela editora da UNICAMP.
Taxonomistas. Cientistas das humanidades.
A ciência é uma só.
Referência.
Boero, F. (2010). The Study of Species in the Era of Biodiversity: A Tale of Stupidity Diversity, 2 (1), 115-126 DOI: 10.3390/d2010115
O quadro negro da educação no Brasil
Confesso que muitas vezes fico bastante irritado e indignado com alguns fatos ruins que se perpetuam. Com decisões importantes que apenas prejudicam a maioria. Como no caso das últimas notícias sobre educação publicadas no jornal Folha de S. Paulo on-line.
Relatório da Unesco diz que Brasil tem baixos índices na educação básica – da Agência Brasil
O Brasil apresenta alta repetência e baixos índices de conclusão da educação básica, aponta o relatório “Monitoramento de Educação para Todos 2010″, lançado nesta terça-feira pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura). Na região da América Latina e Caribe, a taxa de repetência média para todas as séries do ensino fundamental é de 4,4%. No Brasil, o índice é de 18,7% –o maior de todos os países da região. Apesar disso, o Brasil está no grupo de países intermediários em relação ao cumprimento de metas sobre acesso e qualidade de ensino estabelecidos pela organização. O país ocupa a 88ª posição em um ranking de 128 países.
Em 2000, mais de 160 países assinaram o compromisso Educação para Todos, que previa o cumprimento de seis metas incluindo a universalização do ensino fundamental, a redução da taxa de analfabetismo e a melhoria da qualidade do ensino. Para isso, criou um Índice de Desenvolvimento de Educação para Todos (IDE). A Noruega lidera o ranking da Unesco. Ela e mais 60 países estão no grupo daqueles que já cumpriram ou estão perto de atingir todos os objetivos firmados no compromisso. Trinta e seis estão no grupo “intermediário” e 30 são classificados como tendo IDE baixo.
Entre as quatro principais metas estabelecidas pela Unesco, o Brasil tem um bom desempenho na alfabetização, no acesso ao ensino fundamental e na igualdade de gênero. Mas tem um baixo desempenho quando se analisa o percentual de alunos que conseguem passar do 5º ano do ensino fundamental. O relatório destaca algumas iniciativas do Brasil para melhorar a qualidade da educação, como o programa Brasil Alfabetizado, o Bolsa Família, o Fome Zero e as mudanças na política de financiamento.
“No Brasil, por exemplo, o Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação) desempenha papel importante para a redução do déficit de financiamento de educação e para uma distribuição mais equitativa dos recursos entre áreas ricas e pobres”, aponta o relatório.
País perde 12 posições em ranking de educação – da Folha de S.Paulo, em Brasília
O Brasil perdeu 12 posições no índice de educação feito pela Unesco, o braço da ONU (Organização das Nações Unidas) para a educação e a cultura. A queda, do 76º para o 88º lugar entre 128 países, ocorreu principalmente em razão da piora no índice de crianças que chegam até a quarta série. Segundo a Unesco, de 80,5%, em 2005, o percentual caiu em 2007 para 75,6%. Com isso, o IDE (Índice de Desenvolvimento Educacional) do Brasil, caiu de 0,901 para 0,883 em uma escala de 0 a 1, o menor entre todos os países do Mercosul. Isso mantém o país em um patamar considerado mediano pela Unesco.
O IDE é composto pelas taxas de alfabetização de adultos, igualdade de gênero, matrícula na educação primária e sobrevivência na escola até a quinta série -no caso do Brasil, foi considerado o dado relativo à quarta série. Os primeiros lugares ficaram com Noruega, Japão e Alemanha. Os últimos, com Etiópia, Mali e Niger, todos no continente africano.
Um dos piores indicadores brasileiros mostrados pelo relatório é a repetência. Com 18,7% de taxa de reprovação no ensino fundamental no ano de 2005, de acordo com o relatório, o Brasil só perde nesse quesito para 13 países que fazem parte da África subsaariana. No dado mais recente, relativo a 2007, essa taxa estava em 12,1% segundo o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), órgão ligado ao Ministério da Educação.
Em relação ao investimento em educação, o Brasil gastava em 2005 menos de um quarto do que os países considerados como desenvolvidos: US$ 1.257 por aluno contra US$ 5.312 por aluno. O coordenador da Unesco no Brasil, Paolo Fontani, ressaltou a alta taxa de repetência, mas avaliou que o Brasil se saiu bem no relatório ao ter sido bem avaliado no combate ao analfabetismo e na distribuição de recursos, como o Fundeb -fundo que recebe recursos da União, Estados e municípios e viabiliza o financiamento da educação em locais mais pobres.
Procurado para comentar o relatório, o Ministério da Educação afirmou que está analisando os números mas que, de qualquer forma, todos eles se referem ao período anterior ao lançamento do PDE (Plano de Desenvolvimento da Educação), o chamado “PAC da Educação”, que ocorreu em 2007.
O quadro geral da educação no âmbito nacional ainda é extremamente deficiente. Mesmo depois de 16 anos de “democracia consolidada” de governos supostamente engajados com a educação, os números apontam que além do investimento em educação no Brasil ser baixo, a qualidade do ensino está longe, muito longe de ser satisfatória.
São Paulo admite ter de usar professor reprovado em exame – FÁBIO TAKAHASHI, da Folha de S.Paulo
A Secretaria da Educação de SP anunciou ontem (22/1/2009) que poderá atribuir aulas a professores reprovados em seu processo de seleção para docentes temporários para a educação básica. Dos temporários que já trabalharam na sala de aula (pouco menos da metade do total de docentes), 40% foram reprovados –não conseguiram acertar metade das 80 questões.
Segundo o secretário da Educação, Paulo Renato Souza, haverá dificuldades para preencher vagas em algumas escolas, principalmente para as matérias de física e matemática. Ao justificar a possibilidade de convocar professores reprovados, o secretário afirmou que “a nossa prioridade é garantir aulas aos alunos”.
Os sindicatos do setor dizem que é quase certo que os abaixo da nota de corte sejam convocados, principalmente para atuar na periferia das cidades da Grande SP, onde o desempenho dos alunos já é mais baixo. Ainda não é possível saber quantos dos reprovados terão de lecionar, pois o processo de distribuição de aulas não começou –primeiro escolhem os concursados; os temporários preenchem as aulas que faltam. Apesar do ano passado ter terminado com 80 mil temporários e cerca de 130 mil concursados, a rede chegou a precisar de mais de 100 mil não concursados (para suprir casos como licença e aposentadoria). Além dos temporários, o exame também foi feito por outros candidatos –total de 182 mil, dos quais 48% não atingiram a nota de corte. O total de aprovados foi de 94 mil.
Novo discurso
A prova para seleção de temporários foi adotada no ano passado pelo governo José Serra (PSDB). Antes, o critério para a contratação eram os diplomas do candidato e o tempo de serviço. Ao lançar o projeto, o governo afirmou que quem não atingisse a nota mínima não poderia lecionar. A possibilidade de reprovados darem aulas neste ano letivo foi anunciada ontem.
Paulo Renato afirmou que o corpo docente deste ano está melhor. A explicação do secretário é que foi “uma inovação” classificar docentes com base em seus conhecimentos. Disse ainda que, caso tenha de contratar os reprovados, serão selecionados os de melhor desempenho. Além disso, a pasta irá criar cursos a distância para capacitação específica em física e matemática.
Um atenuante para o desempenho dos docentes, afirma Paulo Renato, foi a dificuldade das provas, consideradas por ele como “complexas e longas”. O presidente do CPP (um dos sindicatos dos docentes), José Maria Cancelliero, teve avaliação semelhante. O exame foi feito pela Vunesp, que aplica o vestibular da Unesp. Além de permitir que reprovados lecionem, o governo alterou outro critério. Inicialmente, só iria valer a nota da prova. Após negociar com sindicatos, a pasta decidiu levar em conta o tempo de magistério (que dá bônus de até 20% na nota).
Segundo o jornalista Gilberto Dimenstein, esta notícia é
Muito pior do que enchente – Gilberto Dimenstein (também da Folha on-line)
Cerca de 40% dos professores temporários da rede pública de São Paulo não passaram no teste de conhecimento. O resultado só não foi pior porque parte da nota é composta por tempo de serviço. Mesmo assim – e por falta de alternativa – muitos deles vão dar aulas. Essa notícia é pior (muito pior, diga-se) do que enchente. As enchentes vão e voltam, mas o professor sem capacitação fica, causando danos diários.
Não poderia deixar de reconhecer que merece apoio a decisão do governo estadual de fazer a prova, enfrentando o corporativismo. Até compreendo o anúncio de que os professores reprovados vão continuar dando aula – é isso ou nada. Melhor isso. A prova toca na questão mais grave do país. Não há pais civilizado sem boa educação – e não há boa educação sem bom professor. Poucas coisas são mais relevantes do que tentar atrair talentos para dar aula nas escolas públicas, valorizando o papel do professor, com melhores salários e condições de trabalho. Se a população visse na péssima qualidade da educação uma enchente diária, causando danos por todos os lados (e, pior, na cabeça das crianças), haveria uma revolta permanente.
Paulo Renato de Souza é economista. Foi reitor da UNICAMP (Universidade Estadual de Campinas) entre 1987 e 1991. Foi ministro da educação durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. Atualmente é secretário da educação do governo do estado de São Paulo.
Embora “garantir aulas” aos alunos da rede pública deve ser prioridade, de acordo com a opinião do jornalista Gilberto Dimenstein, esta situação está distante, muito distante de ser satisfatória. Principalmente considerando-se que o PSDB, partido ao qual o Prof. Souza é filiado, está no governo do estado de São Paulo há quinze anos (Mario Covas: 1995-2001; Geraldo Alkmin: 2001-2006; José Serra: desde 2007).
Coloca-se o fato de que a avaliação dos candidatos a professores tenha sido uma inovação. Na verdade, esta avaliação se revela uma obrigação, e não uma inovação. Uma inovação teria sido se ao longo de 15 anos de governo no estado de SP os governadores do PSDB tivessem realmente investido na formação de profissionais na área de educação.
Mas o pior foi colocar a culpa nas provas, “longas e extenuantes” (veja as provas aqui). Bem, quem elaborou estas provas? A Fundação VUNESP, também responsável pela elaboração da prova de vestibular da UNESP (Universidade Estadual Júlio de Mesquita Filho). A prova foi elaborada por professores. Educadores. Ou seja: a culpa não poderia ser das provas, e sim daqueles que elaboraram as provas. Mas a questão é mais profunda: que vai assumir o ônus de qualquer responsabilidade neste caso? Do fato que 40% dos candidatos a professores da rede pública não têm capacidade satisfatória para exercer suas atividades? Do fato que, talvez, tais provas tenham sido mal elaboradas?
Embora em outro contexto, a situação do ensino a nível federal não é diferente. Porque não? Simplesmente porque a verba de educação é repassada do MEC para os estados (no caso do ensino médio) e para os municípios (no caso do ensino fundamental). Ou seja, o MEC deveria se manifestar diretamente sobre a decisão tomada no âmbito estadual em São Paulo.
Se você, cidadão brasileiro que lê este blog, está satisfeito com a aplicação do seu dinheiro (recolhido na forma de impostos) na área de educação, considero que você se satisfaz com muito pouco.
Mirtilos e memória
Mirtilos são pequenas maravilhas. Pequena mesmo, pois são frutinhas azul-arroxeadas, de plantas do gênero Vaccinium e Cyanococcus, originárias da América do Norte, Europa e Ásia (mas hoje encontradas para consumo no mundo todo). Os mirtilos são comumente conhecidos como blueberries, e também são cultivados no sul do Brasil. Infelizmente o sabor das frutas brasileiras não é o mesmo das do hemisfério norte, onde são encontradas em sua forma selvagem. Sua casca azul escura se deve à presença de antocianinas.
Além de seu sabor único, pesquisadores dos EUA e do Canadá realizaram estudos medindo a melhora de processos cognitivos relacionados à memória em pessoas acima de 54 anos que consumiram regularmente cerca de 500 mL de suco de mirtilos por dia. Os resultados indicaram uma sensível melhora na capacidade de memória nas pessoas que consumiram suco de mirtilos durante 12 semanas seguidas.
A importância desta investigação é que a ocorrência de doenças neurodegenerativas está aumentando significativamente com o envelhecimento global da população. Porém, não existem tratamentos realmente eficazes para a cura destas doenças, especialmente o mal de Alzheimer.
Se por um lado a cura de Alzheimer é muito complicada, sua prevenção parece ser um caminho muito melhor a ser adotado para se evitar que a ocorrência de tais doenças atinja grandes proporções em um futuro próximo. Como estratégia de prevenção, a regulação de fatores nutricionais, através de uma dieta rica em alimentos funcionais, é considerada uma das melhores abordagens para o tratamento de doenças neurodegenerativas. O consumo de alimentos ricos em polifenóis é particularmente importante, uma vez que estas substâncias têm ação comprovada na diminuição na ocorrência de doenças desta natureza, bem como na melhora da memória em geral.
Estudos anteriores a este demonstraram que logo após o consumo de mirtilos por camundongos, as antocianinas destas frutas foram encontradas em sítios cerebrais específicos, incluindo o hipocampo e o neocórtex, regiões cerebrais diretamente ligadas às funções cognitivas.
Os mesmos autores observaram que o consumo de suco de uvas, também rico em polifenóis, também exerceu resultados semelhantes na melhora da memória em pessoas com idade acima de 54 anos.
Embora suco de mirtilos seja difícil de encontrar no Brasil, suco de uvas de excelente qualidade já é produzido há cerca de 10 anos no sul do Brasil. Atualmente é possível se encontrar uma boa variedade de sucos de uvas, que diferem de acordo com o tipo de uva utilizado para sua fabricação, como a Isabel e a Concord. Vários destes produtos são orgânicos, e apresentam altos teores de polifenóis com potente atividade antioxidante, que atuam inibindo processos de envelhecimento precoce e, como indicado acima, retardando o aparecimento de sintomas associados a doenças neurodegenerativas (como doença de Alzheimer, mas também doença de Parkinson, esclerose múltipla, e outras).
Referência
Krikorian, R., Shidler, M., Nash, T., Kalt, W., Vinqvist-Tymchuk, M., Shukitt-Hale, B., & Joseph, J. (2010). Blueberry Supplementation Improves Memory in Older Adults
Journal of Agricultural and Food Chemistry DOI: 10.1021/jf9029332










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