Acesso ao patrimônio genético
O boletim “sala de imprensa” do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) divulgou hoje a notícia que
CNPq recebe autorização para credenciar o acesso de instituições ao patrimônio genético brasileiro
Foi assinado em 15/09/09 no CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), em Brasília, pelos ministros da Ciência e Tecnologia, Sergio Rezende, e do Meio Ambiente, Carlos Minc, o Acordo de Cooperação Técnica que permitirá ao CNPq implementar o credenciamento concedido pelo Conselho de Gestão do Patrimônio Genético (CGEN) para autorizar instituições nacionais, públicas ou privadas, a acessar amostras e componentes do patrimônio genético para fins de pesquisa científica, além de autorizar a remessa dessas amostras a instituição sediada no exterior, desde que para fins de pesquisa científica.
[Nota explicativa para os leitores não-especialistas (que eu espero que sejam muitos): o que é exatamente “acessar amostras e componentes do patrimônio genético para fins de pesquisa científica”? “Amostras do patrimônio genético” são amostras de material biológico. Por exemplo, plantas, insetos, vermes, cogumelos, corais, qualquer ser vivo. Ou seja, “acessar amostras do patrimônio genético” seria coletar material biológico para realizar pesquisas. Já “componentes do patrimônio genético” são substâncias químicas dos seres vivos, como enzimas, proteínas, gorduras e outras substâncias de origem natural que podem ser utilizadas para os mais diversos fins: como medicamentos, na indústria de alimentos (fermento de pão, por exemplo, é uma levedura, um tipo de fungo), na indústria agroquímica, etc., etc.]
Além da assinatura do Acordo, foi assinada conjuntamente a exposição de motivos que levou o MCT (Ministério de Ciência e Tecnologia) e o MMA (Ministério do Meio Ambiente) a propor um novo Projeto de Lei sobre a biodiversidade brasileira. O ministro Sergio Rezende disse que há um Projeto de Lei que tramita no Congresso há vários anos, mas que não atende as expectativas tanto do MCT como do MMA: “a nossa proposta é uma tentativa de simplificação. O Projeto que está no Congresso tem cerca de 170 artigos. O projeto que levamos para a apreciação da Casa Civil têm somente 70 artigos, voltados exclusivamente para a questão da pesquisa em C&T”, disse.
Ex-bolsista de doutorado pelo CNPq, Carlos Minc destacou a relevância do acordo entre o MMA e o MCT para o Brasil. “Nós somos aliados, temos grande confiança no CNPq. O meio ambiente está ganhando mais proteção, pois a melhor defesa é o bom uso dos recursos naturais. Garantir a celeridade das pesquisas é o único meio de garantir nosso patrimônio natural e genético. Seguramente o país sairá beneficiado desse acordo”. O ministro afirmou ainda que o licenciamento, entre outras coisas, deve cuidar do homem e da saúde do trabalhador.
Minc também ressaltou a importância de entender o funcionamento dos ecossistemas para protegê-los: “A defesa do Meio Ambiente depende do conhecimento e o conhecimento depende da pesquisa”. O ministro afirmou ainda que nova legislação deverá proteger o meio ambiente, mas também facilitar a pesquisa nacional, principalmente nas linhas de ciência e tecnologia que são extremamente necessárias.
O Projeto de Lei enviado à Casa civil deverá passar por uma avaliação final de outros ministérios e da Presidência da República, antes de finalmente ser encaminhado para votação no Congresso Nacional. O presidente do CNPq, Marco Antonio Zago, disse que esta iniciativa sinaliza de maneira muito clara uma aliança estratégica entre dois ministérios que têm um papel central na conservação e uso sustentável do meio ambiente e dos recursos genéticos nacionais: “a mensagem que a visita dos dois ministros ao CNPq traz a público é a de sinergismos, de cooperação, de interação, de complementaridade. A presença conjunta dos ministros Rezende e Minc no Encontro Anual da SBPC em Manaus, em julho passado, e suas declarações na época, foram seguidas de ações práticas cujo primeiro produto nós comemoramos hoje: a delegação ao CNPq de responsabilidade para credenciamento para atividades científicas envolvendo coleta de material que faz parte do nosso patrimônio genético e da biodiversidade”.
Zago lembrou ainda o papel que cabe a cada um desses atores: ao Ministério do Meio Ambiente cabe a missão de coordenar as políticas governamentais relacionadas à área, exercer o planejamento e execução, aí incluídos os aspectos de controle e vigilância; ao Ministério da Ciência e Tecnologia incumbe a responsabilidade de coordenar a política de ciência e tecnologia para o desenvolvimento; ao CNPq, a mais antiga instituição federal da área, cabe uma parte significativa da execução dessas políticas”.
O CNPq tem longa tradição no apoio a pesquisas envolvendo a biodiversidade brasileira. Exemplos disso são o Programa de Pesquisas Ecológicas de Longa Duração (PELD), que de 2000 a 2009 investiu mais de R$ 20 milhões em 12 biomas nacionais, entre eles os do Cerrado, Mata Atlântica e Floresta Tropical Úmida; Outro exemplo é o Projeto de Conservação e Utilização Sustentável da Diversidade Biológica Brasileira (PROBIO), resultado de Acordo de Doação, firmado entre o governo brasileiro e o Fundo Mundial para o Meio Ambiente, e que já investiu quase R$ 30 milhões entre 2000 e 2007; Além disso, entre 2003 e 2009 o CNPq lançou 11 editais especiais, no valor de quase R$ 100 milhões, para a contratação de projetos de pesquisa científica envolvendo meio ambiente e biodiversidade. Mais recentemente, no final de 2008, foram criados 123 Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia com o apoio do CNPq, dos quais 16 estão envolvidos com pesquisa em biodiversidade e meio ambiente e contam com recursos da ordem de R$ 71,2 milhões.
Como fica a nova distribuição de responsabilidades entre as instituições:
Como pesquisador do “patrimônio genético da biodiversidade brasileira”, tenho pouco a dizer: Viva! Tomara que tudo dê certo e que os pesquisadores da biodiversidade brasileira, nas suas mais variadas modalidades, possam fazer aquilo que mais gostam sem dor na consciência: trabalhar.
Fim de setembro, 2009
Ao final deste mês, fico devendo comentários sobre quatro trabalhos que considerei interessantes para serem divulgados.
Chá verde e saúde dos ossos – Pesquisadores da Chinese University of Hong Kong apresentaram evidências que o consumo de chá verde pode melhorar a saúde dos ossos e a prevenção de osteoporose. Veja aqui, artigo publicado na revista Journal of Agricultural and Food Chemistry.
Evolução só avança, nunca retrocede – É o que mostra estudo realizado por pesquisadores da Universidade do Oregon, uma vez que as rotas genéticas surgidas em ancestrais são bloqueadas para sempre. O estudo é o primeiro sobre evolução reversa em nível molecular, e foi publicado na Nature.
Sapos contra câncer – Medicamento tradicional chinês, o huachansu, obtido a partir do veneno secretado na pele de sapos apresenta baixa toxicidade e diminuição da taxa de desenvolvimento de células tumorais. Aqui.
Melhorando enzimas – pesquisadores da República Checa e do Japão desenvolveram abordagem para melhorar a atividade de enzimas, e foi utilizado para otimizar a taxa de degradação enzimática do tricloropropano, um poluente ambiental altamente tóxico. O método apresenta potencial para ser utilizado na indústria química, medicinal e de alimentos, e foi publicado na revista Nature Chemical Biology. Veja aqui.
Como montar uma célula
Esta é a proposta de Giovanni Murtas, em artigo publicado na revista Molecular Biosystems, editada pela Royal Society of Chemistry. O abstract do artigo, que pode ser lido gratuitamente aqui, é o que segue.
Synthetic Biology approaches can assemble and/or reconstruct cell parts in synthetic compartments. A minimal cell as a model for early living cells can be artificially constructed in the laboratory resuming the main properties of a basic cell living system: a synthetic cell compartment or liposome to host a minimal metabolism based on protein synthesis, and a shell and core reproduction mechanism, all in an artificial cell assembly and remaining in the realm of minimal living. It is becoming realistic to construct artificial cells, starting from a minimal cell assembly, and deliver cell-like bioreactors to synthesize pure proteins/enzymes or isolate single pathways. These artificial cell-like systems could perform different tasks in antimicrobial drug development, drug delivery and diagnostic applications.
Ensino às avessas?
Nem um pouco. Mas sim inovador. Artigo publicado por Fabio de Castro no Boletim da Agência FAPESP relata um método inovador de avaliação, desenvolvido pelo professor Marcelo de Hermes-Lima, do Departamento de Biologia Celular da Universidade de Brasília e autor do blog “Ciência Brasil“. O artigo:
Erros que ensinam – Fábio de Castro
Os erros cometidos por jornais, revistas e sites sobre ciência e saúde podem ser de grande utilidade para avaliar os conhecimentos de estudantes de medicina e nutrição, de acordo com uma nova proposta pedagógica desenvolvida e aplicada em aula por um professor da Universidade de Brasília (UnB). O método de avaliação, criado por Marcelo Hermes-Lima, professor do Departamento de Biologia Celular da UnB e utilizado na disciplina Bioquímica e Biofísica, foi descrito em um artigo que será publicado em breve na revista Biochemistry and Molecular Biology Education.
De acordo com Hermes-Lima, nas provas, os alunos de graduação devem responder se determinadas informações veiculadas em diferentes mídias são verdadeiras ou falsas, com base em seus conhecimentos de bioquímica metabólica, clínica e nutricional. O método é utilizado neste formato desde 2006. “A capacidade para reconhecer os erros pode exigir um bom conhecimento na área biomédica. Para isso, utilizamos textos com informações corretas e erradas retiradas de veículos teoricamente confiáveis, mas que eventualmente contêm erros de diferentes magnitudes”, disse Hermes-Lima à Agência FAPESP.
Segundo o professor, monitores de graduação que são alunos de uma disciplina avançada de bioquímica participam ativamente da elaboração das provas. “O alto grau de envolvimento desses estudantes, quando se lançam a uma revisão crítica dos conteúdos da mídia, é um dos aspectos mais interessantes da experiência”, disse o professor. Julia Martins Oliveira e Diego Martins Mesquita – alunos de Medicina da UnB e ex-monitores de bioquímica – são coautores do artigo. Além de descrever o método, o artigo reporta a reação de 258 estudantes em relação às provas. “Os resultados mostram que 71% deles acharam as provas difíceis. Os que consideraram as provas de boa qualidade foram 87%. E 94% acharam que o uso de questões extraídas da mídia é relevante para a avaliação do aprendizado”, disse.
A média de notas dos alunos nas provas aplicadas entre 2006 e 2008 foi de 5,85 (com 10 de nota máxima). Segundo Hermes-Lima, o baixo desempenho é possivelmente decorrente do fato que os alunos não estão familiarizados com provas que não enfatizam a memorização e os processos bioquímicos. “Infelizmente, no ensino universitário brasileiro, os estudantes ainda são impelidos a decorar”, ponderou. Para classificar os tipos de questões feitas nas provas, o estudo utilizou a escala de Bloom, uma escala cognitiva empregada em pedagogia. “Um dos objetivos do uso de artigos publicados pela mídia nas provas foi enfatizar o nível 3 da escala, que corresponde à aplicação do conhecimento – enquanto o nível 1, por exemplo, corresponde à ênfase na memorização. Concluímos que um terço das questões das nossas provas estão no nível 3 da escala”, disse.
Hermes-Lima explica que, ao selecionar as imprecisões veiculadas em diferentes mídias para utilização nas provas, sua equipe evitou incluir os erros mais grosseiros. “Utilizamos equívocos de diferentes níveis, mas escolhemos erros normais de quem faz jornalismo científico na pressa das redações. Descartamos os absurdos completos”, disse. As provas podem incluir, por exemplo, matérias corretas publicadas por revistas de entretenimento e conteúdos errados veiculados por colunistas consagrados. Fazemos isso como uma desmistificação, para mostrar que o erro e o acerto podem estar em qualquer lugar. Achamos que os estudantes terão que lidar com forte influência da mídia na maneira como seus futuros pacientes percebem questões de saúde. Como os erros e simplificações exageradas são comuns, temos que preparar os futuros profissionais para identificá-los”, disse.
O artigo “What’s on the news? The use of media texts in exams of clinical biochemistry for medical and nutrition students”, de Marcelo Hermes-Lima e outros, pode ser lido por assinantes da Biochemistry and Molecular Biology Education em www3.interscience.wiley.com.
Observações do autor deste blog: achei muito interessante a proposta do Prof. Hermes-Lima, que traz à discussão em sala de aula a utilização de conceitos de maneira crítica, na avaliação da qualidade da informação científica veiculada na mídia em geral.
Estudantes, maconha e álcool
Reportagem de Gilberto Dimenstein, publicada no jornal “Folha de São Paulo on-line” em 21/09/2009, noticia que:
Uma pesquisa nas principais universidades de São Paulo mostra que, na prática, os estudantes legalizaram a maconha – 56% admitiram que fumam ou fumaram maconha. Se essa é a parcela que admitiu, certamente o número é maior.
Especializada em público juvenil, a agência de marketing Namosca realizou levantamento para tentar descobrir o que pensa, sente, deseja o universitário –e aqui estamos falando de USP, PUC, Mackenzie, FGV, Anhembi Morumbi, Unifesp e Ibmec, entre outras. Uma das possibilidades para a sinceridade da resposta é que o levantamento envolve entrevistadores que são universitários. A íntegra da pesquisa está no www.dimenstein.com.br, que abrange do uso da internet até a moda.
A maconha é apenas um detalhe de uma tendência que merece atenção: o imediatismo. Os responsáveis pela pesquisa mostraram que existe um culto exacerbado do prazer imediato, em meio à pressa do tempo real. Isso significa uma dificuldade não só de criar mas até mesmo de pensar em projetos de futuro, o que torna mais difícil postergar o prazer. Daí que, para a maioria dos entrevistados, o que motiva mesmo no ambiente universitário não são as aulas, mas as baladas.
Será que se está criando uma geração de adultos com dificuldades de lidar com a frustração e terão dificuldade de executar um projeto profissional consistente? Esse é hoje um dos grandes temores dos educadores. Ou será que apenas mudou a definição de adolescência, que, agora, passou a ir além dos 30 anos de idade? Basta ver o número de jovens dessa idade que ainda moram com os pais para suspeitar de que essa é mais uma mudança na paisagem humana.
Comentários do autor deste blog:
Atenção: a íntegra da pesquisa, disponibilizada no link, é um arquivo pdf de mais de 15 Mb. Dimenstein faz generalizações de cunho estritamente pessoal, de opinião dele próprio, as quais não podem ser depreendidas da pesquisa em questão. Seria muito bom que suas opiniões fossem melhor fundamentadas. Será que se pode avaliar o universo universitário utilizando um questionário com respostas sim/não? É necessário se avaliar a real extensão do problema de consumo de drogas e relacionar com o desempenho dos alunos nas universidades, de maneira qualitativa e quantitativamente adequada.
Outra coisa: segundo os indicadores da pesquisa divulgada por Dimenstein, os estudantes não somente utilizam maconha, mas também quantidades apreciáveis de álcool. A mesma pesquisa indica que 31,6% dos entrevistados consomem álcool (quanto?) 1 vez por semana, e 25,3% consomem álcool 3 vezes por semana, 2,9% todos os dias e 1,1% mais de uma vez por dia. No que se refere à maconha, a pergunta apresentada pela entrevista é: “Já fumou maconha?” (respostas: sim ou não). Não se sabe quantas vezes.
A pesquisa indica uma tendência à banalização do consumo de álcool. Se 1/3 dos estudantes consome álcool todas as semanas, a tolerância ao consumo de bebidas alcoólicas é evidente. O que não é novidade. O aumento significativo do consumo de álcool nos anos recentes se deve, em boa medida, às propagandas de cervejas, de ampla divulgação em televisões e nos meios de comunicação impressos. Se há cerca de 20 anos ou mais beberrões eram considerados pessoas socialmente desajustadas, atualmente o são aquelas pessoas que não consomem bebidas alcoólicas.
É de consenso que o consumo de álcool no Brasil é um caso de saúde pública. Levantamento recente realizado pela Universidade Federal de São Paulo e financiado pela Secretaria Nacional Antidrogas (SENAD) mostrou que um em cada quatro brasileiros (ou seja, 25% da população) bebe a ponto de correr riscos de sofrer problemas físicos, psíquicos e sociais (veja aqui e aqui). No caso da maconha, observou-se um aumento no consumo de maconha até 2005, passando de 1% da população adulta em 2001 para 2,6% em 2005 (veja aqui).
O problema de consumo de álcool é extremamente sério. O consumo de maconha é crime. Estudos recentes demonstraram efeitos deletérios na saúde dos fumantes regulares de maconha (veja, por exemplo, aqui e aqui). Todavia, se conhece inúmeros efeitos benéficos promovidos por vários constituintes químicos da Cannabis sativa (veja, por exemplo, aqui). Todavia, a OMS considera tais evidências questionáveis (veja aqui). Alguns exemplos de literatura científica que apresenta claras evidências sobre efeitos benéficos de alguns compostos da C. sativa são indicados a seguir:
Além disso, em 1998 a revista New Scientist publicou uma longa reportagem especial sobre maconha. Veja aqui.
Literatura científica de qualidade incontestável que demonstra efeitos nefastos do consumo de álcool, especialmente em longo prazo, é relativamente fácil de ser encontrada. Por exemplo, aqui, aqui e aqui.
NÃO SE PRETENDE AQUI FAZER APOLOGIA DO USO DE MACONHA. MUITO PELO CONTRÁRIO. Maconha é uma droga, ilícita, que pode causar inúmeros malefícios de saúde e sociais . Porém, tais prejuízos não são maiores do que os provocados pelo consumo de bebidas alcoólicas.
Atualização em 28/09/09: Pesquisa intitulada “Este jovem brasileiro – álcool”, realizada pelo portal www.educacional.com.br, e divulgada hoje no caderno “Folhateen” do jornal Folha de São Paulo, revela que aos 15 anos 75% dos jovens brasileiros já provaram álcool, e 31% já beberam até a embriaguez total, 94% das pessoas consideram que os adolescentes de hoje bebem demais, 45% dos adolescentes entrevistados admitiram que já pegaram carona com motorista bêbado.
Atualização em 29/09/09: Uma pesquisa realizada pelo Centro de Referência em Álcool, Tabaco e Outras Drogas (Cratod), órgão ligado à Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo, apontou que metade dos adolescentes que faz uso abusivo de bebidas alcoólicas tem pai ou mãe que também ingere álcool com frequência. Veja aqui.
A constatação que resulta desta pesquisa e dos outros dados revelados acima, além de fatos relacionados a acidentes de trânsito, desenvolvimento de doenças, mortes decorrentes de brigas e crimes com armas de fogo, é que as autoridades brasileiras fingem que problemas decorrentes do consumo do álcool não existem. E portanto, não é prioridade enfrentar este problema de maneira efetiva. Proibição não é solução para nada. No meu ver, só existe uma solução: aumentar de maneira absurda os impostos sobre bebidas alcoólicas. Sugestão de preços: 1 lata de cerveja = R$ 10,00; 1 garrafa de bebida destilada = R$ 100,00. Mas, muitos preferem adotar a atitude, cômoda, como a dos 3 macacos.
Atualização em 04/10/09: recentemente (21/08/2009) o México aprovou lei que descriminaliza o porte de drogas para uso pessoal (5 gramas de maconha, 500 miligramas de cocaína, 50 mg de heroína, 40 mg de metanfetamina e 0,015 mg de LSD; veja aqui). Logo depois (25/08/09) a Argentina sancionou lei que descriminaliza o uso de maconha para uso pessoal (veja aqui). Este assunto é proibido no Brasil, por razões óbvias: quem irá lucrar com a descriminalização de maconha ou outras drogas? Ninguém. Principalmente os traficantes, os principais defensores da proibição do consumo de drogas no país, e que conseguem eleger seus representantes para a Câmara de Deputados e para o Senado.
Atualização em 11/10/2009: artigo de Michael Lee, Michael Mello e Steven Reinert publicado na revista Annals of Emergency Medicine (volume 54, páginas 593-599, 2009) discute os custos associados ao tratamento de condutores bêbados, vítimas de acidentes de trânsito. Motoristas bêbados estão envolvidos em 41% dos acidentes de trânsito dos EUA. Os custos associados com os problemas causados por motoristas bêbados nos EUA atingem 51 bilhões de dólares, dos quais 15% são custos médicos. Veja o artigo “Emergency Department Charges for Evaluating Minimally Injured Alcohol-Impaired Drivers”, comentado no ScienceDaily. Também divulgada esta semana no jornal “Folha on-line” notícia que alunos do campus da USP Ribeirão Preto invadiram a sede da Coordenadoria do Campus. Os estudantes protestam contra decisão do Conselho Gestor, órgão máximo da universidade em Ribeirão, que reforçou a proibição às festas com consumo de álcool dentro da universidade, de acordo com o decreto-lei 13.545, de 20 de maio de 2009. Veja a íntegra do decreto-lei aqui.
Outro estudo, realizado por pesquisadores da Liverpool John Moores University, demonstra que o acesso à bebidas alcoólicas baratas (de baixo preço) faz com que adolescentes estejam muito mais envolvidos em acidentes de trânsito, brigas e relações sexuais prematuras. O artigo “Teenage drinking, alcohol availability and pricing: a cross-sectional study of risk and protective factors for alcohol-related harms in school children”, publicado na revista BMC Public Health, pode ser “baixado” de graça, aqui. O mesmo artigo foi comentado no ScienceDaily.
Atualização em 17/10/2009: notícia divulgada no jornal “Folha de São Paulo on-line” diz que, segundo a ONU, quase 4% dos adultos no mundo fumam maconha. Veja aqui.
Atualização em 29/10/2009: recentemente pesquisadores conseguiram descobrir qual o mecanismo que faz com que o consumo de álcool promova CÂNCER. O consumo de álcool promove modificações nas células humanas que fazem com que as células de câncer se espalhem pelo corpo. Veja aqui, e aqui.
Atualização em 29/10/2009: notícia publicada hoje na edição on-line do jornal Folha de São Paulo diz que segundo David Nutt, professor do Imperial College London e presidente do comitê assessor do governo britânico sobre abuso de drogas, álcool e tabaco são piores que maconha, LSD e ecstasy. O especialista acusou os políticos de distorcerem e desvalorizarem os resultados dos estudos científicos no atual debate sobre drogas ilícitas. Nutt criticou também que alguns boletins tenham publicado relatórios exagerados sobre os supostos danos de algumas dessas drogas. Segundo o especialista, o álcool deve figurar como a quinta droga mais perigosa depois da heroína, cocaína, barbitúricos e a metadona, enquanto o tabaco aparece em nono lugar.
“A cannabis, o LSD e o ecstasy, mesmo sendo nocivos, estão mais abaixo na lista, em 11º, 14º e 18º, respectivamente”, explica Nutt em um documento do Centro de Estudos sobre Crime e Justiça do King’s College. Segundo Nutt, fumar maconha cria um risco “relativamente pequeno” de doença mental, mas o álcool e o tabaco são mais perigosos para a saúde. Um porta-voz do Ministério do Interior se distanciou das opiniões expressadas pelo cientista.
O governo britânico realizou no ano passado uma reclassificação dos diferentes tipos de drogas e situou a maconha no mesmo nível das anfetaminas. Segundo a atual classificação, pertencem à classe A de drogas mais perigosas como ecstasy, LSD, heroína, cocaína, crack, cogumelos alucinógenos e as anfetaminas injetáveis. Na classe B figuram as outras anfetaminas, além de cannabis e metilfenidato (Ritalina), enquanto na classe C, consideradas as menos perigosas, estão os tranqüilizantes, alguns analgésicos e o cloridrato de cetamina (ketamina).
No Reino Unido, a classificação é importante também no ponto de vista da lei e da sanção penal: a posse de drogas da classe A pode levar a sete anos de prisão e multa ilimitada frente a um máximo de cinco anos para as da classe B e dois anos para as da classe C. O comércio é punido ainda mais duramente: pode levar à prisão perpétua no primeiro caso e até 14 anos de prisão para classe B e C.
Atualização em 30/10/2009: estudo revela que a relação entre o consumo de maconha e esquizofrenia ou psicose é irrisório, e que seria necessário o consumo de milhares de cigarros de maconha para uma pessoa desenvolver esquizofrenia ou psicose. Ou seja, esta relação é praticamente inexistente. Veja aqui e também o artigo de Hickman e colaboradores, “If cannabis caused schizophrenia—how many cannabis users may need to be prevented in order to prevent one case of schizophrenia? England and Wales calculations”, na revista Addiction, volume 104, páginas 1856 – 1861 (2009), aqui para ter acesso. Por outro lado, o consumo crônico de álcool pode comprometer severamente a gênese (nascimento, ou surgimento) de novos neurônios no cérebro, principalmente no hipocampo, região associada à memória e de controle da realização de funções. Veja aqui.













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