Química de Produtos Naturais

A química do pão nosso de cada dia

Publicado em ciência, educação, informação, química por Roberto em 31/10/2009

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Pão – um dos alimentos mais antigos da humanidade, faz parte do nosso dia-a-dia como poucos alimentos. Mas, o que sabemos sobre a química da fabricação do pão? Artigo muito didático publicado no último número da revista Chemistry World (editada pela Royal Chemical Society do Reino Unido) relata detalhes sobre a preparação do pão e dos problemas associados à sua fabricação.

A farinha de trigo é constituída principalmente de amido e proteínas, as quais determinam, em grande parte, a “estrutura final” do pão que será vendido e consumido. A medida em que a farinha de trigo é misturada com água, as proteínas do trigo se hidratam para formar o glúten, uma matriz viscoelástica que “segura” grânulos de amido. O glúten é uma mistura de proteínas insolúveis em água, constituído por duas classes: as gliadinas e as gluteninas. É comum a ocorrência de 40 diferentes gliadinas na farinha de trigo, e estas proteínas apresentam massa molecular entre 28.000 e 55.000 Da (1 Da, Dalton, corresponde a uma unidade de massa atômica). Já as gluteninas são macro-polímeros multi-proteínicos, de massa molar aproximada que ultrapassa 2 milhões de Da. As proteínas do glúten apresentam uma composição rica em glutamina, um dos 20 aminoácidos essenciais. A glutamina apresenta forte tendência a estabelecer ligações hidrogênio entre as “folhas” das proteínas nas quais tomam parte – esta característica é em boa parte responsável pela estrutura física e pelo comportamento físico do glúten. Além disso, as cadeias protéicas das gluteninas contém muitos aminoácidos do tipo cisteína, que podem formar pontes dissulfeto uns com os outros e também colaboram na estrutura tridimensional destas proteínas. Finalmente, pesquisas recentes indicam que aminoácidos do tipo tirosina, também presentes nestas proteínas, podem sofrer oxidação e acoplar uns com os outros, aumentando a rigidez das cadeias das proteínas do glúten.

interações-aminoácidosLegenda: da esquerda para a direita, de cima para baixo, interações por ligações hidrogênio entre os aminoácidos glutamina, ponte dissulfeto entre aminoácidos cisteína, e produtos do acoplamento oxidativo entre aminoácidos tirosina. Fonte.

Durante o processo de fabrico do pão, a hidratação da farinha para formar a “massa de pão” não é simplesmente um processo de mistura. É necessário um trabalho mecânico intenso para que a massa fique com boa consistência (quem já fez pão sabe disso). O trabalho mecânico com a massa do pão faz com que ocorra a expansão do CO2 (dióxido de carbono) gerado durante o processo de fermentação. O trabalho mecânico também faz com que o glúten sofra “alongamento” em folhas que capturam o CO2. Também ocorre um aumento do número de “folhas” de glúten, que começam a se associar através de ligações hidrogênio, fazendo com que a massa da farinha se torne cada vez mais consistente.

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Para que a massa de pão fique elástica, as pontes dissulfeto dos aminoácidos cisteína presentes nas gluteninas devem ser rompidas, para que as proteínas formem folhas paralelas umas às outras. São verdadeiras reações de troca, que requerem a ação de sistemas de oxido-redução naturalmente presentes na farinha de trigo.

Um dos problemas na tradicional fabricação do pão é o tempo de crescimento e “descanso” da massa do pão, antes que seja levada ao forno. Depois de sovada, a massa deve ser deixada “em crescimento” durante pelo menos 3 horas para que o CO2 gerado possa fazer a massa crescer e que o glúten fique bem estruturado. Depois desta etapa, a massa deve ser novamente sovada para a remoção do CO2, repartida em quantidades menores, as quais são colocadas em formas (ou formatadas com a mão), e novamente deixadas em crescimento antes de ser levada para assar. Esta etapa é longa e tem um custo de tempo elevado, razão pela qual muita pesquisa foi feita para se diminuir o tempo de preparo da massa a ser assada. O uso de bromato de potássio (KBrO3) até os anos 90 foi com o objetivo de fazer a massa do pão crescer mais rápido. Porém, descobriu-se que durante o cozimento da massa o bromato é convertido em brometo, que é cancerígeno, e o bromato de potássio foi proibido na fabricação do pão (mas não nos EUA). Outro aditivo que foi introduzido na fabricação do pão foi o ácido ascórbico (vitamina C), que age como um agente redutor. Na massa do pão a vitamina C é oxidada pela ascorbato oxidase, e transformada em ácido dehidroascórbico (DHAA). Este por sua vez reage com a glutationa presente na farinha e a transforma em seu dímero, o GSSG. A glutationa (GSH) pode formar pontes dissulfeto com as proteínas do glúten. A remoção da GSH com vitamina C evita o rompimento das pontes dissulfeto do próprio glúten, e melhora a qualidade da massa de pão.

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Outro aditivo que já foi utilizado na fabricação da massa do pão é o aminoácido L-cisteína, que é um rápido e efetivo agente redutor, e que ajuda na quebra e reformatação das pontes dissulfeto do glúten, facilitando o preparo da massa do pão. Todavia, o uso de aditivos nunca foi muito apreciado, pelos padeiros ou pelos consumidores. Por isso, recentemente começou-se a pesquisar a utilização de enzimas no preparo da massa do pão. A farinha de trigo contém enzimas do tipo α- e β-amilases, que promovem a “quebra” do amido e forma açúcares como maltose e glicose. A adição de quantidades adicionais de amilases na massa do pão aumenta a quantidade destes açúcares formados pela quebra do amido, que permite com que a levedura do pão (Saccharomyces cerevisiae) possa produzir maiores quantidades de CO2 e etanol (sim, etanol!), este último em grande parte responsável pelo aroma do pão. Sendo assim, a escolha das amilases é muito importante, e não pode ser qualquer uma, pois existem amilases que não são degradadas pelo calor e deixam a massa do pão embatumada. Outras enzimas utilizadas na fabricação do pão são proteases, que quebram as proteínas do glúten. As proteases ajudam a diminuir o tempo necessário para “trabalhar com a massa”, além de auxiliar na absorção de água, aumentar a elasticidade da massa e não deixar a massa “pesada”. Também liberam alguns aminoácidos que atuam no processo melhorando o sabor do pão e fazendo com que casca do pão fique mais crocante.

Outro elemento importante no preparo da massa do pão são as gorduras que são adicionadas. Antigamente se usava banha (gordura animal – praticamente só ácidos graxos saturados), mas atualmente se utilizam gorduras vegetais, como óleo de palma parcialmente hidrogenado. O uso de sal de cozinha (cloreto de sódio, NaCl) também é importante, não somente para o sabor do pão, mas porque os íons Na+ e Cl- interagem com aminoácidos carregados do glúten, fazendo com que estes tenham interações mais fortes e estabilizem melhor as proteínas. Embora exista uma preocupação crescente com o consumo de sal, por razões de saúde (hipertensão), não é possível uma redução significativa do teor de sal na massa do pão, pois pode comprometer a qualidade da massa.

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Levando-se em conta todos estes fatores, não é sem razão que o pão artesanal é infinitamente melhor do que o pão industrial. Bem como a massa artesanal de macarrões e outros produtos feitos com farinha de trigo. Du pain et du vin, como diriam os franceses. Panis et circensis, os romanos.

Formigas briguentas

Publicado em Uncategorized por Roberto em 30/10/2009

É melhor não mexer com formigas – elas podem se exasperar. E isso realmente acontece entre formigas de um mesmo formigueiro para disputar parceiros, bem como entre formigas de diferentes espécies. O estudo, realizado pelo grupo de pesquisa coordenado pelo Prof. Neil D. Tsutsui (Department of Environmental Science, University of California, Berkeley, EUA), descobriu quais são as substâncias químicas que participam como “sinalizadores de comportamentos sociais” entre formigas de formigueiros diferentes e de um mesmo formigueiro. O estudo foi realizado com formigas da espécie argentina Linepithema humile. Embora de origem argentina, esta espécie é atualmente encontrada na Austrália, Japão e Estados Unidos. Na Califórnia, esta espécie é especialmente agressiva contra formigas nativas e causa distúrbios ecológicos relacionados a culturas agrícolas e declínio da população de uma espécie de salamandra que se alimenta de formigas da espécie nativa dos EUA.

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Em seu habitat natural, indivíduos da espécie L. humile são agressivos entre indivíduos da mesma espécie quando estão em competição por alimento. Os formigueiros tendem a ser pequenos. No entanto, uma vez que invadem território alheio, se transformam em um verdadeiro exército para expulsar outras espécies competidoras. Este comportamento teria base genética, segundo Neil Tsutsui. “O que impressiona mais”, segundo o pesquisador, “é que indivíduos da mesma espécie, mas que habitam territórios diferentes, podem se reconhecer”, fato que foi comprovado após realizar estudos com indivíduos da mesma espécie de San Diego e de São Francisco (California, EUA), cidades distantes de mais de 900 km.

Os pesquisadores conseguiram identificar as substâncias responsáveis pela “comunicação química” entre indivíduos de L. humile como sendo hidrocarbonetos de cadeia longa similares aos encontrados em cutículas de plantas. Após a identificação os autores sintetizaram os hidrocarbonetos para realizar testes comportamentais com as formigas.

hidrocarbonetos de formigas

Quando aplicaram as substâncias em alguns indivíduos, outras formigas não tratadas apresentaram comportamento extremamente agressivo contra as tratadas. O nível de agressividade aumentou com o aumento da concentração dos hidrocarbonetos, e também quando estes foram aplicados na forma de misturas. Os resultados podem fornecer subsídios para posteriores estudos sobre o comportamento social de formigas, e também para o eventual desenvolvimento de formicidas.O artigo de autoria de Miriam Brandt, Ellen van Wilgenburg, Robert Sulc, Kenneth J Shea and Neil D. Tsutsui, “The scent of supercolonies: the discovery, synthesis and behavioural verification of ant colony recognition cues” publicado na revista BMC Biology 2009, 7:71 de acesso livre, pode ser baixado aqui.

Formigas podem ser terríveis. Muitas produzem e acumulam ácido fórmico (daí o nome do ácido, HCO2H). Mas muitas outras produzem e acumulam peptídeos e alcalóides. Por exemplo, as solenopsinas da formiga do fogo (Solenopsis invicta) ou as tetraponerinas da espécie Tetraponera sp., nativa da Papua Nove Guiné.

alcaloides_formigas

Solenopsis x Linepithema

Atualização em 31/10/2009: artigo de revisão sobre este assunto, de autoria de Stephen Martin e  Falko Drijfhout, foi disponibilizado on-line pela revista Journal of Chemical Ecology em 29/10/2009. Veja aqui.

Química explica evolução?

Publicado em ciência, informação, química por Roberto em 27/10/2009

A explosão do Cambriano é considerada como um dos episódios mais relevantes na história evolutiva. Foi quando a grande maioria dos atuais filos do grupo dos metazoários surgiu, de acordo com os registros fósseis. A causa para explosão do Cambriano tem sido debatida por décadas, principalmente por que se considera como sendo a etapa evolutiva da transição dos organismos unicelulares para os organismos multicelulares.

Pesquisadores do Institute for Bioengineering da Cataluña, Bielefeld University, Friedrich-Miescher-Institute em Basel (Alemanha) e o Marine Biological Laboratory at Woods Hole (Massachusetts), realizaram estudos publicados recentemente na revista Molecular Biology and Evolution que relatam o efeito de cálcio (Ca2+) em interações com moléculas que apresentam propriedades de adesão em células de esponjas marinhas. Esponjas marinhas são os animais mais primitivos conhecidos. Se presume que tenham surgido entre 500 milhões e 1 bilhão de anos atrás. Como a estrutura funcional das esponjas permaneceu praticamente inalterada ao longo de todo este tempo, considera-se que as esponjas são verdadeiros “fósseis vivos”, e seu funcionamento pode explicar muito do funcionamento dos tecidos dos animais primitivos.

Calcio

fonte

Segundo os autores do trabalho, o surgimento repentino de quantidades massivas de cálcio no ambiente marinho – possivelmente decorrente de atividade vulcânica – não somente levou ao surgimento de células calcificadas, mas também pode ter iniciado processos de agregação celular e de estabilização dos tecidos celulares agregados. As propostas apresentadas pelos autores constituem uma nova teoria para explicar uma razão geológica para o aumento de cálcio no ambiente marinho, e como este aumento pode ter resultado na explosão do Cambriano.

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fonte

Para fundamentar seus estudos, os autores investigaram o efeito de cálcio na adesão de proteoglicanas extracelulares de esponjas marinhas, as quais atuam diretamente na adesão entre células. Utilizando espectroscopia de força atômica, os resultados indicaram a ação de cálcio na agregação efetiva de proteoglicanas, com interações muito mais fortes. Desta forma, a ação do cálcio pode ter efetivamente contribuído para a formação de tecidos animais, uma vez que mantendo a agregação de células com mesmo material genético, este pôde ser transmitido na sua integridade através de gerações (nota: algumas esponjas se reproduzem de maneira sexuada, mas muitas se reproduzem por brotamento, gemulação ou fragmentação, que são consideradas formas mais primitivas de reprodução).

Veja o artigo de X. Fernández-Busquets, A. Körnig, I. Bucior, M. M. Burger e D. Anselmetti, “Self-Recognition and Ca2+-Dependent Carbohydrate–Carbohydrate Cell Adhesion Provide Clues to the Cambrian Explosion”, Molecular Biology and Evolution, volume, páginas 2551–2561 (2009), aqui.

Água doce ou água salgada influencia na produção de toxinas

Publicado em ciência, informação, química por Roberto em 26/10/2009

Investigação sobre toxinas produzidas por Mycobacterium ulcerans, coordenada por Yoshito Kishi (Department of Chemistry and Chemical Biology, Harvard University), levou os autores a verificarem que ocorre variação na produção de estereoisômeros da toxina de acordo com a origem da micobactéria: se de água doce ou de água salgada.

Mycobacterium ulcerans é responsável por uma doença que causa necrose na pele, a úlcera de Buruli. (veja aqui e aqui) Dentre as micobactérias patogênicas, Mycobacterium ulcerans só é menos perigosa do que Mycobacterium tuberculosis (que causa a tuberculose) e Mycobacterium leprae (que causa hanseníase). As substâncias tóxicas de Mycobacterium ulcerans foram descobertas em 1999, e foram denominadas micolactonas A/B, uma mistura de duas substâncias em equilíbrio. Depois da descoberta inicial destas substâncias, substâncias parecidas foram descobertas a partir de Mycobacterium ulcerans isoladas de peixes e de sapos. Vários destes compostos tiveram suas estruturas confirmadas por sua síntese completa. Os estudos de Kishi levaram à descoberta de que a estereoquímica da cadeia ligada ao grande sistema cíclico pode variar entre as substâncias isoladas; no entanto, a estereoquímica das micolactonas A/B é sempre a mesma.

ulcera-de-Burulifonte

No caso da micolactona F, os autores decidiram investigar se a estereoquímica da cadeia lateral apresentava variação de acordo com sua origem: se isolada de fonte marinha ou de água doce. Assim, analisaram a micolactona F isolada de Mycobacterium marinum obtida de peixes de água salgada e de água doce. Os autores primeiro prepararam as duas substâncias por síntese completa, e desenvolveram um método para conseguir analisar as duas substâncias, utilizando cromatografia com coluna quiral (HPLC quiral). Como os dois estereoisômeros da micolactona F, designados micolactona F e dia-micolactona F, também sofrem isomerização em suas ligações duplas, os autores do estudo tiveram que induzir a isomerização sob ação da luz. Desta maneira, as duas toxinas produziram 3 substâncias diferentes cada uma, sendo que todas puderam ser analisadas por HPLC quiral. Após as análises das duas toxinas de origem marinha e de água doce, os autores observaram que aquela de origem marinha era somente a micolactona F e a de água doce somente a dia-micolactona F.

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Os autores assinalam que a origem da variação da estereoquímica das micolactonas F ainda é desconhecida, mas que certamente deve estar sob regulação genética.

O artigo por H.-J. Kim, K. L. Jackson, Y. Kishi, H. R. Williamson, L. Mosi, P. L. C. Small, “Heterogeneity in the stereochemistry of mycolactones isolated from M. marinum: toxins produced by fresh vs. saltwater fish pathogens”, foi publicado on-line pela revista Chemical Communications (DOI: 10.1039/b917014f).

Comentário: que coragem de trabalhar com estas substâncias. Já pensaram se cair na mão? Kishi é um dos grandes químicos orgânicos de síntese. Realizou as primeiras sínteses completas da tetrodotoxina e da palitoxina, e muitas outras.

Drogas ilícitas curam efeitos de drogas lícitas

Publicado em ciência, informação, química por Roberto em 24/10/2009

Notícia supreendente publicada hoje no jornal Folha de São Paulo on-line conta que

Cientistas avaliam os benefícios terapêuticos do LSD

Pesquisadores de universidades respeitadas têm observado o potencial do LSD e de outras drogas, como ecstasy e maconha, quanto às terapias de saúde dos pacientes. De acordo com o jornal britânico “The Guardian”, um crescente número de pessoas tem usado LSD, maconha e ecstasy para ajudar uma variedade de doenças, incluindo anorexia nervosa, dores de cabeça, enxaquecas e ataques de síndrome do pânico.

Ainda segundo o jornal, “o surgimento de comunidades que passam drogas entre usuários na base da amizade, suporte e ajuda –com dinheiro raramente envolvido– acontece em meio a um ressurgimento da pesquisa de possíveis benefícios terapêuticos das drogas psicodélicas”. O fato gera otimismo entre os adeptos do uso de droga enquanto terapia, uma vez que há a possibilidade de obtenção de remédios baseados em psicotrópicos diretamente dos seus respectivos médicos –sem o risco de ser preso por isso.

Dentre os usuários que esperam que as drogas sejam usadas como uma alternativa está a professora universitária Anna Jones (nome fictício), 35, que consome LSD uma ou duas vezes por ano. Ela diz ter receio de que, sem suas doses ocasionais, possa voltar ao alcoolismo, problema que abandonou há 14 anos, com a ajuda da droga proibida. “Para mim, foi o catalisador para desistir de comportamentos destrutivos –alcoolismo e tabagismo. Quando era estudante, eu costumava beber duas ou três garrafas de vinho, dois ou três dias por semana, porque eu não tenho muitos amigos e não me sinto confortável comigo mesma”, diz ela. “Então eu tomei LSD um dia e não me sinto mais sozinha. Ele me ajudou a me ver diferente, a aumentar a minha autoconfiança, a perder meu desejo de beber ou fumar e apenas me sentir alguém no mundo. Não toquei em álcool e cigarros desde aquele dia, em 1995, e sou muito mais feliz do que antes.”

LSD

Muitos outros usam as drogas para lidar com ataques de ansiedade crônica provocados por doenças terminais, como o câncer. Várias pesquisas foram conduzidas sobre drogas psicodélicas entre as décadas de 1950 e 1960. Em alguns lugares, elas efetivamente se tornaram item de prescrição médica para tratamento de ansiedade, depressão e dependência química. Mas uma reação contra o LSD (baseada na preocupação de que o poderoso alucinógeno estava se difundindo como droga recreativa, e medo de que o uso excessivo desencadeasse esquizofrenia e outras doenças mentais) fez com que a pesquisa com a droga fosse proibida nos anos 1970.

Sob o Ato de Abuso de Drogas, datado de 1971, o LSD leva classificação A, o que significa que é considerada uma droga perigosa, como também sem qualquer valor médico. Agora, John Halpern, psiquiatra da Escola Médica de Harvard, nos Estados Unidos, descobriu que 53 pessoas com crises de enxaqueca tomaram LSD ou psilocibina (composto ativo dos chamados “cogumelos mágicos”) ilegalmente tiveram alívio da dor. Ele e sua equipe internacional estão investigando se o 2-Bromo-LSD, versão não-psicodélica do LSD conhecida como BOL, pode ajudar na mesma condição.

Estudos sobre como drogas estão ajudando pessoas também estão sendo conduzidos no Reino Unido. Amanda Feilding, diretora da Fundação Beckley, em Oxford, organização que investiga consciência, é uma figura-chave para o ressurgimento do interesse científico nas drogas psicodélicas – e expressa seu entusiasmo mencionando dois trabalhos científicos. “Um deles, da Universidade da Califórnia, em Berkeley, foi a primeira pesquisa a obter aprovação do uso de LSD, ante corpos regulatórios e de ética, desde os anos 1970″, afirma. Aqueles que participaram do estudo são os primeiros a tomar LSD legalmente nas últimas décadas, como parte de uma pesquisa para saber se ele ajuda a criatividade. “LSD é uma substância potencialmente valiosa para a saúde humana e para a felicidade.”

Claviceps_purpureaO fungo Claviceps purpurea (escuro) se desenvolve sobre centeio.

O outro é um estudo suíço em que a droga é dada como complemento da psicoterapia para as pessoas que têm câncer em estado terminal, a fim de ajudá-los a lidar com a profunda ansiedade provocada pela morte iminente. “Se você manipula o LSD com cuidado, não se torna mais perigoso do que outras terapias”, disse Peter Gasser, psiquiatra que lidera os trabalhos. Na Universidade Johns Hopkins, em Washington, um outro estudo analisa se a psilocibina pode auxiliar a psicoterapia para pessoas com dependência crônica de substâncias que não tenham sido ajudado por um tratamento mais convencional.

Mas a reputação do passado pode fazer com que seja difícil a aprovação de medicamentos psicodélicos, segundo a Agência Regulatória de Medicina e Saúde do Reino Unido. “‘O efeito adverso conhecido de drogas psicodélicas teria de ser considerado com muito cuidado na análise risco / benefício, antes que drogas possam ser aprovadas para uso medicinal”, disse um porta-voz.

psilocibina

Comentários: não deixa de ser surpreendente, mesmo. Será que o estigma de drogas consideradas “ilícitas” diminuirá pelo fato destas se mostrarem úteis para o tratamento de doenças de fundo psicológico e/ou neurológico?

O LSD, a dietilamida do ácido lissérgico, é um derivado sintético do ácido lissérgico, que é biossintetizado pelo fungo Claviceps purpurea como parte do alcalóide ergotamina. O LSD foi descoberto pelo químico suíço Albert Hofmann, que trabalhava para a indústria farmacêutica Sandoz. Os efeitos alucinógenos do LSD foram descritos pelo próprio Hofmann, que tomou acidentalmente uma pequena dose: 250 mg (0,000250 g). Os efeitos da droga se tornaram famosos com a publicação do livro “Portas da Percepção”, escrito por Aldous Huxley, e o LSD foi adotado nos anos 60 e 70 pelos hippies. Porém, logo se tornou proibida.

Já a psilocibina é produzida juntamente com a psilocina por outro fungo, o cogumelo Psylocibe mexicana. Estas duas substâncias também foram descobertas pelo mesmo Albert Hofmann. Todavia, o cogumelo ficou famoso com o livro “A Erva do Diabo”, escrito por Carlos Castañeda, que narra um estudo antropológico realizado no deserto de Sonora, no México, quando conheceu um índio, Don Juan. Don Juan iniciou Castañeda no uso de alucinógenos para que este pudesse conhecer “espíritos” de sabedoria. Castañeda tomou não somente Psilocybe mexicana, como também Datura spp. (que contém atropina, escopolamina e hiosciamina) e Lophophora williamsii (que contém mescalina).

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Não é à toa que o LSD, o ácido lissérgico, a ergotamina e a psilocibina são alucinógenos. Todos apresentam uma parte muito parecida com a serotonina, um neurotransmissor cerebral. A serotonina apresenta diversas funções, como o controle da liberação de alguns hormônios e a regulação do ritmo circadiano, do sono e do apetite. Já a mescalina é muito parecida com outro neurotransmissor, a dopamina.

Hoje em dia não é necessário tanto. Basta que a internet esteja funcionando que já ficamos todos em êxtase.

Atualização em 26/10/2009: foi divulgado hoje a publicação da versão on-line da revisão bibliográfica “New therapeutic potential for psychoactive natural products”, por Katherinne M. Prevatt-Smith e Thomas E. Prisinzano, na revista Natural Product Reports. Disponibilizei a primeira página da versão on-line do artigo, aqui. Infelizmente não posso disponibilizar o artigo completo neste blog, por razões legais.

Atualização em 29/10/2009: notícia publicada hoje na edição on-line do jornal Folha de São Paulo diz que segundo David Nutt, professor do Imperial College London e presidente do comitê assessor do governo britânico sobre abuso de drogas, álcool e tabaco são piores que maconha, LSD e ecstasy. O especialista acusou os políticos de distorcerem e desvalorizarem os resultados dos estudos científicos no atual debate sobre drogas ilícitas. Nutt criticou também que alguns boletins tenham publicado relatórios exagerados sobre os supostos danos de algumas dessas drogas. Segundo o especialista, o álcool deve figurar como a quinta droga mais perigosa depois da heroína, cocaína, barbitúricos e a metadona, enquanto o tabaco aparece em nono lugar.

“A cannabis, o LSD e o ecstasy, mesmo sendo nocivos, estão mais abaixo na lista, em 11º, 14º e 18º, respectivamente”, explica Nutt em um documento do Centro de Estudos sobre Crime e Justiça do King’s College. Segundo Nutt, fumar maconha cria um risco “relativamente pequeno” de doença mental, mas o álcool e o tabaco são mais perigosos para a saúde. Um porta-voz do Ministério do Interior se distanciou das opiniões expressadas pelo cientista.

O governo britânico realizou no ano passado uma reclassificação dos diferentes tipos de drogas e situou a maconha no mesmo nível das anfetaminas. Segundo a atual classificação, pertencem à classe A de drogas mais perigosas como ecstasy, LSD, heroína, cocaína, crack, cogumelos alucinógenos e as anfetaminas injetáveis. Na classe B figuram as outras anfetaminas, além de cannabis e metilfenidato (Ritalina), enquanto na classe C, consideradas as menos perigosas, estão os tranqüilizantes, alguns analgésicos e o cloridrato de cetamina (ketamina).

No Reino Unido, a classificação é importante também no ponto de vista da lei e da sanção penal: a posse de drogas da classe A pode levar a sete anos de prisão e multa ilimitada frente a um máximo de cinco anos para as da classe B e dois anos para as da classe C. O comércio é punido ainda mais duramente: pode levar à prisão perpétua no primeiro caso e até 14 anos de prisão para classe B e C.