Educação: más e boas notícias
Duas reportagens da edição de hoje, 28/12/2009, do jornal Folha de São Paulo on-line, traz más e boas informações sobre ensino.
A má: Professor dá a aluno nota maior que Saresp, mostra pesquisa
Um estudo feito por três pesquisadores do departamento de economia da USP – Ricardo Madeira, Marcos Rangel e Fernando Botelho – mostra que os professores da rede estadual dão notas maiores a seus alunos do que as que os mesmos estudantes recebem no Saresp (Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo), revela reportagem de Antônio Gois, publicada na edição desta segunda-feira da Folha (íntegra disponível para assinantes do UOL e do jornal). Esse é o primeiro estudo que compara o desempenho de estudantes no Saresp com as notas dos boletins escolares. A pesquisa também mostra que existe diferença entre as notas dadas aos alunos negros e branco. Enquanto, os estudantes tiveram o mesmo desempenho no Saresp, as notas dos brancos são mais altas em salas de aula. No estudo foi comprovado que as meninas têm preferência na avaliação dos professores. Notou-se que a maior diferença entre notas foi nas provas de matemática do 3º ano do ensino médio. Na prova do Saresp, só 36% tiveram êxito. Já para os professores, quase todos (93%) atingiram o patamar mínimo de aprendizado considerado adequado.
O Saresp é o exame de avaliação de aprendizagem aplicado pelo governo estadual. A prova avalia estudantes das 2ª, 4ª, 6ª e 8ª séries do Ensino Fundamental e 3ª série do Ensino Médio. Participaram do exame este ano 1.780.122 alunos de escolas estaduais, 625.950 alunos de escolas municipais e 68.745 alunos de escolas particulares. Foram avaliadas as disciplinas de língua portuguesa (incluindo redação), matemática, história e geografia. Mas, apenas as disciplinas de língua portuguesa e matemática foram consideradas na composição do Idesp (Índice de Desenvolvimento da Educação do Estado de São Paulo), utilizado para definição de metas e avaliação das escolas da rede estadual.
Comentários: oops! Algo de muito estranho aqui. Notas maiores a alunos brancos do que negros? Notas maiores para meninas do que para meninos? Notas maiores em salas de aula do que nas provas do Sarep?
A boa: Guilherme, aos 14 anos, já dá “aulas” para colegas em universidade federal – reportagem de Dimitri do Valle
Aos 14 anos, o estudante mais jovem a ser admitido em uma universidade do país encerrou seu primeiro ano no ensino superior com notas altas e até dando aulas de reforço a outros colegas. Guilherme Cardoso de Souza, morador de um bairro na periferia de Curitiba, foi aprovado em primeiro lugar no vestibular de química da UFPR (Universidade Federal do Paraná) no começo de 2009, aos 13 anos. Filho de um motorista e de uma auxiliar de cozinha, ele ganhou bolsa de R$ 300 para trabalhar na universidade com aulas de reforço em cálculos e geometria analítica. Como é muito novo e tem de percorrer 25 km (1h 30 de ônibus) de casa ao campus, a mãe dele, Edna Lopes Cardoso, 45, o acompanha desde o primeiro dia de aula e hoje trabalha em um restaurante universitário da UFPR.
Entre as notas que Guilherme tirou ao final do segundo semestre na universidade, estão um dez em álgebra linear e um 9,1 em introdução à filosofia da ciência. “Fico surpreso que ele tenha tirado um dez [em álgebra]. É um tipo de disciplina bastante incomum para o estudante tirar uma nota alta como essa”, afirma o professor Cláudio Antônio Tonegutti, coordenador do curso de química da UFPR. Guilherme diz que não teve problemas de adaptação. Na UFPR, ele afirma que sente “uma maior autonomia”. “É claro que tem todas as obrigações, mas a gente não precisa se prender tanto a elas como na escola.”
O adolescente aprendeu a ler aos dois anos. Quando a mãe percebeu que o menino lia em voz alta ofertas do supermercado do bairro, ficou assustada, mas procurou ajuda com professores para superdotados. A sexta série do ensino fundamental, por exemplo, concluiu em uma semana. Há quatro anos, ele ganhou uma bolsa de uma empresa para estudar em um colégio particular de Curitiba. Guilherme quer ser professor. Ao fim da graduação, quando terá 17 anos, quer iniciar o mestrado. Também escreve sozinho um livro sobre química que, diz, terá três volumes, com cerca de 500 páginas cada um. Como boa parte dos garotos de sua idade, ele é fã de reality shows e seriados de TV. Não acompanha esportes e gosta de ficar em casa.
Comentários: Grande Guilherme. Quer ser professor (de química!). Um exemplo desses deveria ser muito valorizado pelos nossos pares, colegas, educadores, pesquisadores, professores. O exemplo de Guilherme não poderia ser minimizado. Se um rapaz com tal capacidade intelectual quer ser professor, é que existe uma forte motivação por trás de tal desejo. Guilherme e seus colegas, de todo o Brasil, deveriam ter a atenção redobrada por parte daqueles que estabelecem e implementam políticas educacionais. Quantos Guilhermes mais não andarão por aí? Muitos, com certeza.
Cientistas e jornalistas
Interessante artigo de Julio Abramczyk, publicado na edição de hoje, domingo 28 /12/2009, da Folha de São Paulo, fala sobre
Cientistas e jornalistas
Uma das diferenças entre cientistas e jornalistas é a linguagem. O cientista usa o vocabulário próprio da sua área, e o jornalista transmite informações compreensíveis sobre ciência. É a imprensa que sedimenta e forma a opinião pública sobre os problemas da comunidade, entre eles a importância da educação para a população e a da compreensão da ciência para o desenvolvimento de uma nação. Organizadas pelos professores Jorge Wertheimer e Célio da Cunha, foram recentemente lançadas, em segunda edição, “O que Pensam os Cientistas sobre Ensino de Ciências e Desenvolvimento” e “O que Pensam os Jornalistas sobre Investimentos em Educação, Ciência e Tecnologia”.
As obras, editadas pela Unesco com o patrocínio do Instituto Sangari, mostram estreita convergência de ideias de 28 profissionais de imprensa e de 26 cientistas. Enquanto o jornalista Carlos Eduardo Lins da Silva mostra que o bom jornalismo ajuda a criar o ambiente social necessário para que educação e ciência consigam ser fatores capazes de alavancar o progresso econômico, o matemático Marco Antonio Raupp, presidente da SBPC, insiste na mobilização da sociedade para um ensino de qualidade, especialmente no nível fundamental, que é o que mais afeta a cidadania.
O microbiologista Isaac Roitman pergunta por que foi tão curta a experiência da Funbec na década de 1960 e o jornalista Janio de Freitas explica: se os problemas educacionais persistem no país que construiu Brasília, a conclusão é que a classe dominante jamais desejou, realmente, resolver o problema educacional no Brasil.
Natureza desconhecida
Reportagem absolutamente incrível publicada no jornal Folha de São Paulo on-line traz fotos de espécies marinhas desconhecidas da Antártida (ou Antártica? Já vi o nome da cerveja ser cunhado para o continente do pólo sul). Diz a reportagem que
Um grupo de pesquisadores de vários países, a bordo de um navio de pesquisas britânico, fotografou espécies raras na plataforma continental Antártida. Peixes, aranhas aquáticas gigantes, polvos e estrelas-do-mar estão entre as espécies raras reveladas em fotografias divulgadas pelo grupo de pesquisa British Antarctic Survey (BAS). Como parte do estudo internacional que cobre desde a superfície até o fundo do mar da região, a equipe de pesquisadores de toda a Europa, Estados Unidos, Austrália e África do Sul coletou amostras de criaturas marinhas da região oeste da Antártida, uma das áreas marinhas cujo aquecimento é o mais rápido do mundo. “Poucas pessoas percebem como a biodiversidade oceânica do sul é rica, até mesmo uma simples pesca com rede já revela uma variedade fascinante de criaturas esquisitas e maravilhosas”, disse o líder da expedição de pesquisa David Barnes, da BAS. “Potencialmente, estes animais são ótimos indicadores de mudanças ambientais, pois muitos vivem nas águas rasas, que estão mudando rapidamente, mas também em águas profundas, que vão se aquecer mais lentamente. Agora podemos ter melhor compreensão de como o ecossistema vai se adaptar para mudar.” O pesquisador acrescentou que o estudo realizado na região da península antártica demonstrou que algumas espécies são incrivelmente sensíveis a mudanças na temperatura. Uma das espécies mais comuns na região, encontrada pelos pesquisadores, foi o pepino-do-mar, que tem um papel muito importante no processamento de sedimentos no fundo do mar e que está ameaçada pela expansão das áreas de pesca. Outra espécie estudada pelos pesquisadores foi o krill, um pequeno crustáceo que é o principal alimento de pinguins, focas e baleias. Os pesquisadores descobriram grandes variações nas espécies vivendo em uma área relativamente pequena. “Mudanças na superfície da Terra afetam diretamente o oceano e os animais marinhos. Por exemplo, a aceleração do derretimento das geleiras, o colapso destas geleiras e o encolhimento do gelo marinho no inverno, tudo parece causar impacto na vida marinha. Queremos entender estes impactos e quais as suas implicações para a cadeia alimentar”, afirmou a bióloga do BAS Sophie Fielding.
Eu te cito, tu me citas, ele te cita, nós te citamos, vós nos citais, eles nos citam
Quais os critérios escolhidos por cientistas para citar uns, e não outros, trabalhos científicos quando elaboram seus artigos? Aparentemente, pouco claros, para dizer o mínimo. Artigo publicado no Journal of the American Society for Information, Science and Technology por María del Mar Camacho Miñano e Manuel Núñez Níckel, da Universidad Complutense de Madrid e UC3M, discute tais aspectos.
As citações “são tudo” na avaliação de pesquisas e pesquisadores. Os critérios de relevância científica estão atualmente fortemente embasados no número de citações que um determinado autor possui, no seu índice h (índice h = número de trabalhos publicados com o mesmo número de citações. Ou seja, se um pesquisador possui 10 trabalhos publicados, o 1º com 1000 citações, o segundo com 500, o terceiro com 465, o quarto com 322, o quinto com 300, o sexto com 198, o sétimo com 51, o oitavo com 31 o nono com 17 e o décimo com 10, seu índice h é 10) e no fator de impacto das revistas em que publica (que são determinados pelas citações que tais revistas recebem). Eventualmente, consideram-se também outros fatores na avaliação do trabalho dos pesquisadores: quantos alunos de mestrado e doutorado formou, onde seus ex-alunos trabalham, se ganhou prêmios, etc. As implicações da avaliação dos pesquisadores são várias: obtenção de financiamento para pesquisa, reconhecimento, progressão na carreira, melhor classificação no quadro geral de pesquisadores na área em que atua, e, até mesmo, maior facilidade em publicar em revistas de melhor qualidade científica.
O problema apontado por Miñano e Níckel é que nem sempre autores de trabalhos científicos utilizam critérios “adequados” para selecionar quais referências bibliográficas citar em seus artigos. Em vez de selecionar tais referências de acordo com sua importância para substanciar o trabalho em elaboração, muitas vezes os artigos citados são “escolhidos a dedo”. Isto leva a uma “discriminação escondida”, segundo os autores, difícil de ser detectada. Mas nem tanto.
Segundo Miñano e Níckel, tal discriminação pode ser resumida a três aspectos: características pessoais dos autores de um determinado trabalho (sexo, raça, onde obtiveram o doutorado, afiliação profissional prévia, se algum dos autores toma parte no corpo editorial de alguma revista, etc.); características do artigo a ser citado (metodologia empregada, número de páginas, se é uma contribuição original ou uma revisão bibliográfica), e; em qual revista o artigo a ser citado foi publicado (revistas com maiores fatores de impacto tendem a ser mais citadas).
Tal comportamento “pouco profissional” parece até mesmo ser estimulado por editores e revisores, que reforçam a necessidade de que sejam citados trabalhos da própria revista para a qual determinado artigo foi submetido para publicação. Segundo Miñano e Níckel, a justificativa de editores seria: se nossa revista não é interessante que seja citada, por que o artigo foi submetido para a nossa revista?
Uma possível solução para se evitar tal problema é que os editores notifiquem os revisores (aqueles que avaliam os artigos submetidos para publicação) sobre a ocorrência de tais problemas, advertindo que trabalhos relevantes para substanciar o artigo sob avaliação devem ser necessariamente citados. Resta saber se os próprios editores teriam interesse em eventualmente “abrir mão” que artigos de sua própria revista fossem citados. De qualquer maneira, autores devem estar sempre atentos para citar artigos que sejam realmente importantes, de maneira a fornecer subsídios adequados para o seu próprio trabalho ser avaliado.
De acordo com Miñano e Níckel, o comportamento “amoral” em se citar trabalhos pouco importantes, ou de nenhuma importância, é bastante comum. Núñez Níckel afirma que “a ciência raramente é altruística, mas na maioria das vezes egoística.” E assinala que determinadas áreas de pesquisa estão sujeitas à degeneração ou estagnação em decorrência de tal comportamento por parte de cientistas.
Infelizmente, no que se refere às citações, tudo é possível, e quase nada controlável. Até cerca de 10-15 anos atrás, quando tais índices (h, de número de citações, de fator de impacto das revistas) ainda inexistiam, o “fazer científico” parecia ser menos tendencioso. Porém, não é possível se voltar no tempo, mas apenas refletir sobre o presente para, pelo menos, tentar se vislumbrar um futuro um pouco mais nobre para a ciência.
Referências
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Camacho-Miñano, M., & Núñez-Nickel, M. (2009). The multilayered nature of reference selection Journal of the American Society for Information Science and Technology, 60 (4), 754-777 DOI: 10.1002/asi.21018
MacRoberts, M., & MacRoberts, B. (2009). Problems of citation analysis: A study of uncited and seldom-cited influences Journal of the American Society for Information Science and Technology DOI: 10.1002/asi.21228
Ciência Fundamental ou ciência aplicada?
A seguir estão disponíveis os dois textos citados no blog “Química Viva”. Ambos foram escaneados do Jornal da Ciência, 1998, 13 (395).










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